Notícia postada por: Felype Falcão - 04-03-2010
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ESTAÇÃO SAÚDE
Embarque com destino à qualidade de vida
Retomando a série de entrevistas desta
coluna, esta edição traz um bate-papo com o homeopata
Renato Curti Jr.. Durante quase 1h de conversa, ele fala sobre
os pontos fortes da homeopatia, porque ainda existe preconceito com
relação a este tipo de tratamento, como ela está
agindo diante das novas doenças e quais os principais
benefícios para a terceira idade.
O que é homeopatia e o que a difere da
medicina alopática?
A homeopatia foi idealizada pelo médico
alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), um contemporâneo de
Mozart. Para poder conceituá-la melhor, vou fazer um breve
histórico e apontar as diferenças com a alopatia. A
primeira está na própria palavra. “Alos” significa
contrário, e “páthos”, doença. A alopatia
geralmente usa algo para opor a doença. A homeopatia, em sua
tradução literal seria “hómois” (semelhante)
e “páthos” (doença). Mas a principal diferença
entre as duas está no conceito, na abordagem da doença.
Para exemplificar: se eu tiver um processo inflamatório, o
conceito alopático é bloquear a transmissão
daquela informação, para isso se usa um
anti-inflamatório. Se eu tiver um processo infeccioso, eu vou
bloquear a ação do agente infeccioso. Na homeopatia, é
um pouco diferente Hahnemann descobriu que todo agente causador de
uma doença tem uma pequena quantidade que pode ser utilizada
como o agente responsável para curar a própia doença.
Ou seja, o semelhante cura o semelhante. Ele chegou a essa conclusão
fazendo a tradução de um texto médico sobre a
aplicação do quinino, extraído da casca de uma
planta chamada quina, que era utilizado no tratamento da malária.
Ele, por conta própria, tomou um pouco desse extrato de
quinino e viu que essa substância produzia um quadro semelhante
a malária, com febre, mal-estar. Um exemplo mais fácil:
ao cortar ou manipular uma cebola para uma salada você vai
lacrimejar, espirrar, o nariz vai ficar irritado, além de uma
série de outros sintomas. Esse quadro sintomatológico
foi determinado pela cebola. Mas por outro lado, quando você vê
uma pessoa que tem um resfriado comum, a situação é
semelhante. Lacrimejamento, coriza, espirros, irritabilidade. Ou
seja, o quadro que a cebola provoca é semelhante ao resfriado
comum. Então o princípio de Hahnemann foi extrair da
cebola a menor quantidade de cebola possível, de modo que ela
não fosse capaz de causar uma doença, mas criar um
quadro semelhante à doença original, existente na
natureza, que é o resfriado comum. Para isso, ele fez uma
diluição da cebola. Posteriormente, chegou à
conclusão que aquilo só não serviria. Ele
precisaria ionizar ou diluir e agitar a substância e utilizar
pequenas quantidades dela substância. Ele tomou e viu que numa
dose aquela substância era capaz de provocar no organismo uma
série de sintomas diferentes. Seguindo o princípio
homeopático de Hahnemann, da lei da semelhança, o
medicamento homeopático é uma substância diluída
infinitamente, capaz de curar o quadro sintomatológico como
tratamento não só para quem se intoxicou, como para
quem tem uma doença semelhante a que foi apresentada. É
bom ressaltar que esse medicamento só vai ser utilizado em
pacientes depois de ser experimentado numa pessoa sadia. Essa é
mais uma diferença da homeopatia. Não se usa animal nem
vegetal para experimentar. Uma pessoa sadia experimenta e vai relatar
todos os sintomas baseado naquela quantidade. O homeopata vai estar
obrigado a fazer o diagnóstico convencional porque a medicina
homeopática, aqui no Brasil, é conhecida como
especialidade médica desde 1980. Ele tem que fazer o
diagnóstico convencional da doença, patológico,
mas, além disso, ele tem que ter o diagnóstico
homeopático e escolher a melhor substância, que mais se
assemelha ao quadro sintomatológico que o paciente está
apresentando.
De acordo com algumas pesquisas, em vez de
atuar diretamente na causa do problema, a homeopatia tenta resolver
todos os agentes internos do corpo que são causadores desse
problema.
É isso mesmo. O conjunto de sintomas que
reflete o desequilíbrio do estado de saúde tem que ser
levado em consideração. No diagnóstico
convencional de uma gastrite, por exemplo, você faz uma
endoscopia, vê as alterações inflamatórias
no estômago, identifica o agente biológico que está
causando a inflamação ou algum agente químico e
ponto final. Para o homeopata, além deste diagnóstico,
é preciso entender outros sintomas que fazem parte do quadro.
O paciente tem gastrite, mas você sabe que é uma pessoa
que tem muita sensibilidade no estômago e que ainda assim
ingere alimentos mais fortes, ácidos, picantes; os sintomas
mentais, se é uma pessoa extrovertida, introvertida, medrosa,
valente, irritada, tímida, e daí por diante. Isso vai
criando uma especificidade para cada caso, e o homeopata busca
entender essa totalidade de fatores. Para cada tipo de gastrite, pode
haver diferentes medicamentos.
Já que o sr. citou essa questão
de alimentação, de comportamento, que fatores externos
podem contribuir ou prejudicar o tratamento homeopático? Fumo,
álcool, alimentação, atividade física...
Esse é uma questão que sempre
incomodou aos homeopatas e cientistas de uma forma geral. Todo agente
causador de uma doença, de um desequilíbrio, tem que
ser estudado. E esse agente não é necessariamente um
novo ser. Você tem a doença causada por agentes físicos,
pela luz, por exemplo, exposição ao calor, agentes
químicos, produtos de limpeza, agentes biológicos, uma
bactéria que invade seu organismo, um vírus, um fungo.
Mas também existem outras condições causadoras
de doenças que vão ter que ser levadas em consideração.
Se o paciente perdeu o emprego, por uma situação
injusta, e ficou doente, desenvolvendo um câncer gástrico,
ou uma úlcera, isso está vindo não da
alimentação que ela está tendo, mas do momento
psicológico. O agente psicológico é causador de
doenças também. Se pessoa perdeu um ente querido, um
amigo, é um trauma psicológico fortíssimo. Muito
importante de ser analisado quando se vai diagnosticar uma doença.
Nem sempre o agente causador da doença está tão
claro. Diagnosticando todos os fatores, você vai dando o valor
devido a cada ponto. Para o homeopata, todos os agentes nocivos ao
corpo são chamados de noxas, sejam eles do reino vegetal,
animal, além do social, psicológico.
O sr. citou que a homeopatia faz um estudo em
cima de toda a doença. Como ela tem se comportado diante de
doenças virais, como a dengue, a AIDS?
Como citei anteriormente, a homeopatia é a
doença dos semelhantes. Se a pessoa tem dores musculares,
febre, dor ocular, eventualmente, vermelhidão ou manchinhas, e
não consegue sair da cama porque a dor muscular é muito
grande, e eu sei que planta X é capaz de causar um quadro
sintomatológico semelhante à dengue, pego uma porção
desta planta, submeto-a à metodologia homeopática de
obtenção de medicamento e vou administrar para o
paciente. A doença é semelhante, então no caso
da dengue este é o procedimento. No caso da Aids, tem
substâncias que se você começar a administrar, a
dar vinagre a pessoa, por exemplo, cujo grande componente é o
ácido acético, em pouco tempo ela vai entrar num estado
de emagrecimento extremo e poderá até desenvolver
outras doenças. Um quadro semelhante ao que é
determinado pelo vírus da Aids, por exemplo, é a
intoxicação pelo ácido acético, mas é
fato que não podemos tratar a Aids dessa maneira. Nesse
universo todo, precisamos ter bom senso para considerar que o nosso
conhecimento é limitado. A medicina que é praticada
hoje era inusitada há trinta anos atrás. Antes, você
usar cortisona para uma infecção era um absurdo, e hoje
em dia se usa. Existe uma questão: a produção
científica na homeopatia é muito boa, muito
consistente, mas ela não acontece no mesmo nível da
produção científica da alopatia, fortemente
patrocinada pela indústria. A homeopatia não chegou
nesse ponto. Cabe ao profissional utilizar o bom senso e informar ao
paciente qual o melhor tratamento para ele utilizar.
É o caso das doenças mais novas?
Sim. Ao se deparar com uma síndrome aguda
respiratória, nós não temos de tempo de fazer, é
preciso agir. Tudo tem que ser feito. Dentro dessa abordagem, a gente
tem que começar a pensar o seguinte: eu tenho jeitos melhores
de tratar, por exemplo, uma dor de cabeça, uma alergia
respiratória. Não estou inviabilizando o tratamento
médico convencional. Ao contrário, estamos agregando.
Há um sem número de pessoas que tinham bronquite, asma,
dificuldades respiratórias, a bronquite crônica na
terceira idade, que se beneficiam muito pelo uso da homeopatia. Não
que ela não se beneficie da alopatia, mas dentro da nossa
especialidade há um repertório de medicamentos, de uma
abordagem terapêutica boa, segura, especialmente nessas doenças
que já são mais bem estudadas, e que garantem aos
pacientes uma melhoria, um conforto, uma qualidade de vida muito
grande.
Hoje existe um pensamento de que a homeopatia
só consegue resolver problemas mais simples. Os mais complexos
ela não consegue solucionar. Isso é verdade?
Não. Se você parar para pensar qual o
princípio da homeopatia, o semelhante cura o semelhante. Então
a gente vai ter um número enorme de substâncias para
você experimentar, e um número enorme de quadros
clínicos. Muito difícil você encontrar uma doença
para qual algum dos milhares de medicamentos homeopáticos –
que hoje são medicamentos porque alguém foi lá e
experimentou e idealizou – não cubra. O que existe, isto
sim, é que a produção científica ainda
não é suficiente para permitir que você tome uma
decisão unilateral.
Isto quer dizer que no caso de uma doença
mais complexa como o câncer, é preciso tratar com
homeopatia e alopatia concomitantemente?
A primeira abordagem é: a homeopatia não
vai causar os efeitos colaterais indesejados. Segundo, a gente tem
que saber como é a produção científica.
Por exemplo, como é a produção científica
de estudo de leucemia tratada com homeopatia. O número de
trabalhos realizados, de pacientes tratados, é irrisório
se comparado com a alopatia, na qual os pacientes com leucemia são
tratados de uma forma e apresentam o seguinte resultado: sobrevivem
tanto. O que falta na homeopatia é estudo conclusivo que
permita a você, com segurança absoluta, conduzir o
paciente por esse caminho. A situação ideal é
que ele seja tratado exclusivamente por uma abordagem. Mas como falei
antes, a vida é um pouco curta para você viver esse
momento. No caso de um paciente que está com câncer do
intestino, algumas escolas dizem: “ah, tem como tratar”, mas os
resultados não apareceram tão favoráveis assim.
Nesse ponto, o profissional tem que pesar muito bem o que vai fazer.
A minha visão é: tira o câncer, faz o tratamento
convencional que é necessário também e nós
vamos agregar com o tratamento homeopático porque a gente sabe
dos benefícios dele. Às vezes não é uma
questão de uma doença mais simples. Uma gripe é
uma doença simples? Uma asma é uma doença
simples? Uma tensão pré-menstrual é uma doença
simples? Uma osteoporose é uma doença simples? Podem
ser doenças simples, mas não tem cura. Me fala alguém
que cura uma gripe? Se a gente for ver o tempo de evolução
de uma gripe com os medicamentos convencionais, que hoje estão
disponíveis no mercado, eles são apenas medicamentos
que aliviam determinados sintomas, mas não curam a gripe. Um
processo gripal tratado exclusivamente com a homeopatia, tem duração
às vezes inferior a do tratamento convencional. Se você
focalizar a crise da asma, é um ponto. Se você focalizar
a doença, é outro. Não há dúvida
nenhuma de que se você tiver com dor de cabeça e tomar
um analgésico, aquela dor vai ser aliviada. Mas as pessoas não
imaginam que você usando um medicamento homeopático,
além de aliviar a dor de cabeça, vai reduzir as crises
de enxaqueca. Só a experiência do dia a dia é que
vai mostrar isso. Paralelamente a todos esses quadros que foram
desenhados, está sendo feita uma produção
científica. O paciente tem um quadro de infecção
urinária. O que é melhor? Tratar com homeopatia ou com
alopatia? Em alguns casos a homeopatia se mostra superior, pela
resolução do processo em um curto espaço de
tempo e principalmente pela diminuição das dores
seguidas. Profissionalmente, estamos num momento interessante de
aplicar tudo o que a gente dispõe. A acupuntura também
é uma ciência oficial no Brasil, mas como médico
preciso saber quando vou indicar acupuntura para o paciente ou o
tratamento homeopático. No caso de uma doença que exija
uma intervenção cirúrgica imediata, salvar a
vida do paciente está acima de qualquer coisa. Como uma doença
de curta evolução, você tem que lançar mão
de tudo que você conhece, inclusive da homeopatia e da
acupuntura, que são ciências oficiais, para salvar a
vida do paciente. Só que infelizmente essa prática pelo
lado da alopatia não é feita. Eles deixam o paciente
tomar a homeopatia quando já não tem mais nada o que
ser feito, na opinião deles. Mas hoje existem médicos
de alto nível e de muito bom senso, que agregam o
conhecimento, e não o segmentam.
Alguma mensagem para os nossos associados?
Em primeiro lugar, todas as faixas etárias
podem se beneficiar do tratamento homeopático. Há uma
série de doenças que podem ser tratadas pela
homeopatia, e com muita vantagem. No caso de pacientes com
hipertensão arterial, na medida em que a homeopatia puder
ajudar o paciente a tomar menos medicamento ou a não tomar
outro medicamento convencional e ele tiver o mesmo nível de
qualidade de vida e de controle, acima de tudo, do seu quadro, por
que não usar um medicamento homeopático? A gente sabe
que o diabetes não é uma doença curável.
Mas em algum momento o tratamento coadjuvante pode ser dado. E muitas
vezes na medicina convencional a gente dá um tratamento de
alívio. Os problemas psicológicos, um quadro de
desmotivação, de tristeza, de depressão, de
ansiedade, são quadros que há anos a homeopatia trata
muitas vezes com vantagens.
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